‘A Cidade Sem Judeus’: Clássico do cinema mudo austríaco vai ser remasterizado

O Arquivo Cinematográfico da Áustria vai remasterizar ‘Die Stadt Ohne Juden’ (A Cidade Sem Judeus), um clássico do cinema mudo, baseado num romance do judeu Hugo Bettauer, filme que estreou originalmente em Viena, em julho de 1924, mas cuja versão original desapareceu nos anos de guerra e foi considerada perdida durante mais de 90 anos.

O filme previa, uma década antes, a ascensão do nazismo e a perseguição à comunidade judaica, num momento em que o partido nazi ainda estava proibido e Adolf Hitler estava dando os retoques finais numa cela de uma prisão da Baviera.

É o fim da primeira guerra mundial, a inflação está a crescer e os habitantes de uma cidade de língua alemã começam a ficar transformados. Os políticos são rápidos em encontrar um bode expiatório: “O povo”, anuncia o chanceler, “exige a expulsão de todos os judeus”. O que pode soar como um trecho de um livro de história sobre o Terceiro Reich é na verdade a sinopse de um filme produzido num momento em que o partido nazi ainda estava proibido e Adolf Hitler estava dando os últimos retoques a Mein Kampf numa cela da prisão da Baviera.

Agora, graças a uma descoberta casual num mercado parisiense e à maior campanha de crowdfunding realizada até à data no sector da cultura da Áustria, o filme mudo está definido para ser digitalmente restaurado e ser relançado na sua forma original, numa estreia agendada numa sala de concertos de Viena, para o outono de 2017.

A organização austríaca, que organizou a campanha de crowdfunding, conseguiu atingir os 75.500 €, a quatro dias do prazo final. Um porta-voz da organização disse que uma grande foi doado por uma fundação judaica anónima nos Estados Unidos, após a vitória eleitoral de Donald Trump e às duplicações das doações diárias, após a derrota de um candidato populista de direita nas eleições presidenciais austríacas.

“A mensagem que queremos enviar é que este não é apenas um filme sobre o passado, mas uma declaração antinazi”, disse Nikolaus Wostry, diretor do Arquivo, ao The Guardian.

Bettauer, o autor do romance que inspirou o filme, foi assassinado no seu escritório por um ex-membro do então partido nazi, apenas alguns meses depois da estreia do filme.

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