E se uma das figuras mais controversas do universo empresarial norte-americano abrisse as portas da sua vida privada a uma equipa de filmagem, precisamente quando estava prestes a perder a liberdade?
É a partir desta premissa que nasce “You Can See Everything“, um dos documentários mais desconcertantes do ano, que tem como protagonista Amanda Seyfried no papel de Elizabeth Holmes, a controversa fundadora da Theranos, nos dias que antecederam a sua entrada na prisão.
Entre intimidade, suspeita e acontecimentos inesperados, o filme realizado por Nathan Fielder e Lance Oppenheim promete desafiar a perceção do espectador sobre a verdade. A estreia nos cinemas portugueses está anunciada para a próxima quinta-feira, dia 12 de novembro.

Conhecida por ter fundado a Theranos, uma empresa de biotecnologia que prometia revolucionar os testes clínicos através de uma tecnologia capaz de analisar amostras de sangue muito reduzidas, Holmes tornou-se o rosto de um dos maiores escândalos empresariais de Silicon Valley. Depois de ter sido condenada por fraude contra investidores, a antiga empresária viu o seu percurso profissional e pessoal transformar-se num caso amplamente acompanhado pelos meios de comunicação social.
É precisamente num momento particularmente delicado que começa a história do documentário. Em 2023, 34 dias antes de se apresentar na prisão para cumprir a sua pena, Elizabeth Holmes convidou uma equipa de filmagem a acompanhar o seu quotidiano, juntamente com o companheiro, Billy Evans (Christopher Abbott), e os dois filhos.

Aquilo que inicialmente parecia ser um retrato intimista de uma mulher prestes a enfrentar as consequências dos seus atos acabaria por evoluir para um projeto cinematográfico muito mais ambicioso. Ao longo de três anos, os realizadores procuraram compreender quem é realmente Holmes e até que ponto é possível confiar naquilo que revela perante as câmaras.
Nathan Fielder, conhecido pelo humor desconcertante de “Nathan for You” e pela abordagem pouco convencional de “The Rehearsal”, assume também um papel central na narrativa. A sua presença diante das câmaras, confrontando diretamente Holmes e o companheiro, contribui para criar uma atmosfera de permanente tensão e desconforto.
Não se limitando a acompanhar os acontecimentos, o filme explora também os limites do próprio documentário, recorrendo a reconstituições e a soluções narrativas inesperadas que colocam constantemente em causa a fronteira entre o real e o encenado. Sem revelar as surpresas que reserva, a obra promete uma experiência que vai muito além de um tradicional retrato biográfico.
Mais do que revisitar a queda de Elizabeth Holmes, o documentário “You Can See Everything”, produzido pela A24, coloca uma questão inquietante: quando alguém nos permite ver tudo, estaremos realmente a conhecer a verdade?









